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Da Spartan World Championship para a magia da Serra da Estrela

     A Spartan Race, a mais dura prova de obstaculos, como é conhecida, tem 3 diferentes campeonatos do mundo. São eles, a Spartan World Championship, a Spartan Ultra World Championship e a Spartan Trifecta World Championship.

     O Campeonato do Mundo Spartan teve lugar a 29 Setembro no coração de Squaw Valley, a Norte de Lake Tahoe, EUA.  21km com 30 obstaculos, onde os atletas foram postos à prova a nivel da força fisica, mental e resistência. As temperaturas negativas, a queda de neve que se fez sentir, o terreno muito duro e acidentado, onde o nivel de altitude chegou acima dos 2700mts e a parte da nataçao, puseram à prova a capacidade fisica dos atletas, obrigando-os a sair da zona de conforto.

     Deixo a reflexão de 3 atletas portugueses envolvidos nesta competição, Helder Rodrigues (OCR Police Team), Nelson São Martinho (instrutor de fitness e Personal Trainer em "Le Club Fitness" no Valais Suiça) e Estela Sao Martinho. 

Hélder Rodrigues 

 

6º Classificado Age Group

23km, 3h16m08s, 2000 D+, 144ppm, 0 Burpees penalização

 “Nunca uma medalha de “Finisher” teve tanto sabor de conquista e superação. Mais do que competir contra adversários foi uma luta contra nós próprios, nossos medos e adversidades. Incrível como somos capazes de fazer coisas que nunca julgávamos possíveis quando levados ao limite.

Partida de Squaw Valley (local dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1960) a 1900 metros de altitude com temperaturas a rondar os 0ºC. Os primeiros 6Km subiam até Squaw Peak a 2700 metros de altitude. As condições atmosféricas eram cada vez mais agrestes e com o corpo bloqueado cedo percebi que não tinha capacidade para acompanhar o grupo da frente. Overwalls, 6´ Wall, Monkey Bars, Inverted Wall e Z-Wall foram os obstáculos encontrados durante a subida.

Chegados ao topo da montanha encontramos um conjunto de obstáculos todos seguidos: Bucket Carry, Bender, Spear Throw, Olympus, Armer, Multi-Rig, Tyrolen Traverse, Ape Anger, Barbed Wire Crawl, Atlas Carry, e Slip Wall (Dunk Wall tinha sido fechado). As temperaturas negativas e os ventos fortes tornaram este conjunto de obstáculos num verdadeiro campo de batalha, o vento era ensurdecedor e os “gemidos de dor” das pessoas era terrifico. Mais tarde o Ape Anger seria fechado. No dia anterior e com melhores condições atmosféricas, a Ultra e a Beast Open tinham sido interrompidas por razões de segurança!

Passado estes obstáculos começamos a descer a montanha, toda a gente corria mais rápido tentando aquecer, mas não deu para isso: Duplo Sandband Carry, o verdadeiro terror! O percurso descendente ainda foi feito com alguma facilidade, mas a subida tornou-se penosa, olhávamos nos olhos uns dos outros e percebíamos o desespero de cada um de nós, parecia uma tarefa impossível, dávamos força uns aos outros e lá avançávamos mais um metrinho. Os sacos abandonados ao longo da subida eram imensos, as pessoas simplesmente tinham desistido face á dificuldade e ao estado de hipotermia que se apoderava do corpo e deixados lá os sacos. Esta situação fazia lembrar quando os soldados tinham que passar por cima dos corpos ao avançar nas frentes de batalha. Carregar, arrastar, subir, pousar… carregar, arrastar, subir, pousar… Metro a metro até finalmente completar o circuito e entregar os sacos!

Livres dos sacos e após uma corrida descendente aparece o obstáculo mais controverso da prova, Swin in the Lake. Com as condições que estavam, não terem fechado este obstáculo foi insensato, grande parte dos atletas, tal como eu, optamos por tirar a roupa antes de entrar no lago de forma a mantê-la seca e vestindo-a após a natação. Muitos foram os abandonos após esta natação e não se entende o porquê de terem mantido este obstáculo aberto. Vestida a roupa tínhamos cerca de 2km a descer até á zona de meta, a energia gasta pelo corpo para aquecer era imensa e este começava a ceder, as cãibras surgiam e os tropeções por não conseguir erguer as pernas também, felizmente nenhuma queda grave. Low Crawl, 7´Wall, 8´Wall ultrapassados.

Chegado ao Helix, obstáculo relativamente simples, tive a real percepção do estado do meu corpo, a sensibilidade das mãos tinha desaparecido, os músculos das pernas saiam sempre que esticava uma perna e a única coisa que parecia controlar era a mente. Não sentia as barras, e tinha de olhar de perto para ver que tinha as mãos agarradas nas barras, o tacto tinha sido substituído pela visão. Ultrapassado este obstáculo, o caminho até á Rope Climb foi feito a passo a tentar aquecer as mãos, era fundamental para o resto de prova. Logo após a subida á corda aparece o Monkey in The Middle (Duas secções de Twister, Monkeys Bars Up and Down e mais duas secções de Twister), obstáculo demasiado comprido para fazer com cautela, seria muito moroso e com a falta de energia cairia a meio, teria que arriscar fazer em swing, o que foi feito com excepção da ultima secção de Twister, com o sino ali tão perto e o medo de cair fez com que fosse feito um a um… Os obstáculos estavam secos o que ajudou bastante.

A-Frame Cargo, The Box feitos e começamos a subir novamente, desta vez para uma cota mais baixa com temperaturas bem mais agradáveis. Se tivesse de voltar a subir a primeira montanha provavelmente teria lá ficado. Um erro de logística fez com que não tenha levado alimentação suficiente, o desgaste era enorme e nos abastecimentos apenas existia agua gelada e de agua gelada já eu estava cheio 8km a subir e a descer a montanha com Pipe Lair, Stairway to Sparta, Vertical Cargo Plus e Hurdles pelo caminho e entramos finalmente na parte final com Sandbag Carry, Beater, Tire Flip, A-Frame Cargo e Hercules Hoist antes de cruzar a meta. Destes o virar duas vezes o pneu de 180Kg foi o que á partida seria de mais dificuldade.

23km e 3h16m08s depois estava terminada a prova, o sentimento de conquista era imenso, tinha sido uma jornada épica e o 6º lugar obtido no AG foi a cereja no topo do bolo, um orgulho pertencer ao Top 10 mundial dos velhinhos .

It was a wonderful journey e as praias do Norte nunca mais me vão meter medo.”

 

Nélson São Martinho

      "Este é o segundo ano consecutivo que faço a prova e dadas as condições climatéricas deste ano, posso dizer que foi uma boa prestação. A neve, o vento e o frio condicionaram muito esta prova pois, com a altitude as temperaturas desciam cada vez mais e sabíamos que os obstáculos obrigatórios, como as cargas, mas principalmente, os de água, iriam ser bastante duros, eu diria mesmo, o nosso maior teste nesta montanha. 

     Perante este cenário, o simples fato de concluir a prova já era uma grande vitória e, felizmente para mim, foi excelente poder receber aquela medalha no final; esta representa todo o ano de trabalho e participação nas competições, que me fizeram chegar lá. A sensação de dever cumprido e o orgulho em representar o meu país faz-me sentir bem e dá-me motivação para novos desafios e, só desta maneira, conseguimos avançar na vida, quer de forma desportiva, quer pessoal."

 

Estela São Martinho

“Eu vinha de uma lesão (quase 2 meses sem correr), sabia que não ia estar a 100%, ainda assim, ia tentar fazer a prova e, rezar para que, as dores, não interferissem. Todos nós sabíamos que não ia ser fácil!! Temperaturas baixas, talvez trovoada, muita neve, frio e, todos os obstáculos, com água e travessias, complicariam a prestação .... o Lago era sem dúvida a maior dificuldade e receio de todos nós (poderia ser o princípio do fim). Entre os 5, tentamos partilhar estratégias e ideias para superar essa e, outras situações, que pudessem aparecer.

     No dia 28, a prova foi cancelada antes de ter terminado e, na manhã seguinte, estávamos ansiosos: haveria Dunk wall? Haveria Ape hanger?? E o Lago?

Logo pela manhã, saía a notícia que todas as provas estavam atrasadas 2h (por causa das condições do terreno), o dunk wall estava fechado, no entanto, o lago estava aberto e era obrigatório!!!! A minha partida foi às 13:00, sem conseguir comer, nervosa e começava a nevar... outra vez! Foi um início longo, as primeiras 3 milhas em subida, com um sabor de sangue na garganta e boca, o frio gelava os pulmões e estava com imensa dificuldade em respirar ... quase no final da subida passa o Nelson por mim e deu-me algum alento. Passo nos primeiros obstáculos sem penalizações, mas as mãos começam a gelar e, quando chego ao Olímpus, começo a “encher”. O vento que se fazia sentir no cimo da montanha a 3300m cortava a pele da cara e dificultava o esforço. Passados alguns km chego ao duplo saco . Um percurso quase de 1 km, entre subida e descida, com dois sacos perfazendo um total de mais ou menos 40 kg. Havia mulheres que não conseguiam andar com essas cargas, havia gente a cair para o lado por hipotermia e iam surgindo as primeiras desistências. Muito dura a subida com estes sacos... mais uns km e chego, finalmente, ao Lago onde as raparigas choravam, o marshall gritava connosco e, muitos atletas, saíam de lá quase a desfalecer. Mais desistências ... enfim, não pensei muito e pus em prática o plano (tira a roupa e coloca no saco, entra na água, nada, sai da água, limpa-te, veste roupa seca e arranca), assim foi. Quando voltei a correr os pés quase que partiam, abanei tanto as mãos para aquecer, que, no dia seguinte, até os pulsos me doíam. Mas passei, superei... 

Agora era a descer e tinha de correr rápido para aquecer. Quando cheguei à base da montanha (local de partida, mais ou menos a meio da distância) tinha vários obstáculos seguidos, o corpo estava cansado mais que o normal (tinha tido trabalho a dobrar só para aquecer), resultado mais 60 burpees, antes de voltar às subidas.

Nestas últimas subidas já não consegui ir a trote, quase sempre a andar, as pernas já fraquejavam, mal eu sabia que ainda tinha alguns desafios pela frente. Stairway to Sparta com pegas de escalada tão altas que não consegui alcançar... mais 30 burpees... 

Começa a descida e vem algum alento, mais um saco, o beater, o pneu yokohama (90 kg) e, finalmente, o Hércules Hoist (pesado…) sem estratégia e sem força, não consegui... mais 30 burpees. 

A reta da finish line era já ali, finalmente... acabei bem, com a sensação de dever cumprido: a montanha não me venceu, eu venci, hoje, aqui na montanha(este foi o meu pensamento)

Entre os/as melhores Atletas do Mundo da Spartan Race, senti que não tendo uma “Pro-Team”, somos fortes e resilientes. Houve tantas desistências entre os melhores!

Eu orgulho-me de representar o nosso país com companheiros deste nível.

Esta foi uma das experiências mais duras .... No entanto, feliz por ter partilhado uma experiência com um grupo fantástico."

 

Em Portugal, o palco para receber a primeira grande prova OCR de resistência em montanha é dia 2 maio, o que será que nos espera!